Domingo, 17.02.13

Tenho novo abrigo. De novo solitário. Chama-se Malconfort.



# Tiago Moreira Ramalho às 13:19 | | comentar

Segunda-feira, 14.11.11

No mundo em que vivemos o passado persegue-nos de um jeito novo. As assombrações são antigas, tão velhas como todas as nossas idades juntas. Mas hoje a assombração materializa-se. Hoje a fotografia, o vídeo e o texto tornam as assombrações palpáveis. O meu eu passado não é mais uma ideia. Torna-se uma realidade. E isso é uma merda.



# Tiago Moreira Ramalho às 22:45 | | comentar

Segunda-feira, 17.10.11

Quando passo a ferro apercebo-me do quão sobrevalorizado é o conceito de perfeição. É uma luta tola por um ideal essencialmente imperfeito (o que não deixa de ser curioso – a perfeição é um ideal imperfeito). Deixo sempre sete vincos nas camisas. Conto-os sempre. Agora seria bastante expectável que eu contasse os vincos no texto, para dar ao leitor o sentimento do meu quase autismo, mas queremos evitar esse tipo de fórmulas comuns. Contar os vincos aqui serviria apenas para que o leitor saltasse. Nenhum iria ler cada uma das sílabas como se estivesse realmente a contar. O leitor passaria os olhos e, no seu cérebro, perceberia «ele está a contar» e saltaria para a frase que se seguisse. Não se pode culpar. Gostava de contar o número de textos em que os autores contam e expõem o processo de contagem para criar um «real» na mente do leitor, que não é nem mais nem menos real que tudo o resto que se escreve. Claro que tudo isto interessa muito pouco, no fim. Teorizar sobre as contagens em literatura. Contabilizar as contagens em literatura. Perguntar aos contadores literários o que os levou a contar na literatura que decidiram produzir (geralmente esta literatura é «produzida»). A produção literária faz-me sempre lembrar o Orwell. Lembro-me daquela passagenzinha do 1984 em que os computadores produzem os romances para que as pessoas leiam. Os romances não são obras criadas. Respeitam algoritmos. Enfia-se por um computador acima o que as pessoas gostam e sai de lá um cagalhão cheio de «experiência estética». A arte também deve ser sobrevalorizada. Afinal, tudo o que é isso da experiência estética pode ser feita por algo além de carne. Ou pelo menos é o que nos dizem. E a gente tem de acreditar.



# Tiago Moreira Ramalho às 23:41 | | comentar | (1)

Quarta-feira, 14.09.11

Vou impor uma regra a este texto, que é a seguinte, que passo a explicar: o texto vai ser grande. Vou impor uma nova regra a este texto, que é a seguinte, que não vou explicar: não vou voltar nunca atrás, isto é, não haverá arranjos por cima de arranjos, preocupações com frases curtas e longas, palavras belas e feias, ritmos e toda a parafernália habitual de quem se julga bom escritor. No limite, quero apenas escrever um texto longo e desafiar essa obrigação de ter, num texto, especialmente num longo, conteúdo. Não vai ter conteúdo. Ou melhor, conteúdo terá, pelo suceder de proposições (daquelas cuja veracidade é verificável e tudo – as outras ficam de fora, até porque nunca as conheci e não gosto de estranhos à minha volta), mas não será conhecimento (se é que isso há em algum texto) nem qualquer outra coisa transmissível. Não será um suceder de ideias com nexo, até porque não tenho sensibilidade num dos dedos dos pés, que os ingleses fazem muito bem em chamar coisa diferente do que chamam aos dedos das mãos e, mais impressionante, aos polegares. Afinal, se os polegares oponíveis são, mais do que o cérebro, que cresceu depois, aquilo que nos define, como poderemos metê-los numa amálgama indiferenciada de vinte dedos, alguns tão irrelevantes como o mindinho do pé. E agora quase que rocei o conteúdo, mas a regra imposta impede-me de apagar. Imponhamos uma nova regra: mesmo que haja conteúdo, pelos direitos de autor, o leitor fica proibido de o transmitir. Mais que isso, fica proibido de dizer que leu este texto. O que é uma pena, porque vai ser um texto longo e, geralmente, nós orgulhamo-nos de ler textos longos. Veja-se o delírio colectivo com os novelistas russos – a malta gosta é deles grandes, saberá o Senhor Deus porquê. Claro que se o leitor mais vaidoso, isto é, daquele tipo de leitor que anuncia o próprio farto, principalmente quando é rijo, como o do D. João V no princípio daquele livro, ai, que me lembro do nome, só para dizer que acrescentou algo ao mundo, pode perfeitamente deslocar-se para a saída da Internet, ou pelo menos para a saída deste blogue (é ir sempre para cima, virar à direita e ir até lá ao fundo). Não o condeno. Aliás, se eu me deparasse com um delírio desta natureza num qualquer blogue, tinha duas hipóteses: ler ou não ler. O teorema da alternativa nunca foi tão bem aplicado como agora. Obrigado, obrigado. Pronto, já chega. Prossigamos para o sítio de onde viemos. Então, agora que fiquei sem conteúdo, coisa que me tem ocupado o espírito nos últimos milénios – o espírito é eterno e o caralho, a memória é que é curta, dizem os entendidos. Por falar em memória curta, não costumo sofrer disso – é coisa de gente limitada. Não tenho, no entanto, memória de elefante, não deixando, no entanto de novo, de me intrigar pela natureza da expressão. Não sei de que tamanho é o cérebro elefantino, quão desenvolvido se encontra e tudo mais, mas se a memória, tirando umas merdas que vemos, é essencialmente um fenómeno linguístico, não me corrijam se eu estiver enganado, isto é matéria de fé, é como os preservativos para os da missa, como é que podemos aferir, sem passar pelo ridículo de entabular conversação com um mamífero de porte considerável, se a memória é desenvolta ou essencialmente básica? Odeio o ponto de interrogação, palavra de honra. Gostava de um dia falar com as pessoas que inventaram a pontuação. Tenho muita estima por quem inventou a palavra ‘bola’, por exemplo, mas nenhuma por quem inventou um traço com um ponto em baixo ou uma coisa serpenteada também com um ponto, no caso, igual em baixo. Era chegar ao pé deles com uma coisa serpenteada com um ponto em baixo e enfiar-lhes aquilo pelo rego das nalgas a cima, para verem como se sente um texto puro e inocente corrompido por pontuação estranha e, no limite, e agora entramos na avaliação estética de nível superior, feia. Se quero exprimir uma pergunta, faço a pergunta e, caso não seja óbvio pelo arranjo sintático que se trata de uma questão, coloco, no limite, uma vírgula e coloco a adequada forma do verbo ‘perguntar’. O mesmo para exclamar. Para quê, então, estas simplificações aberrantes, pergunto. Bando de idiotas, apetece exclamar, mas não chegamos a exclamar, porque, na verdade, a exclamação por vezes é desnecessária e, até, prejudicial. O pessoa dizia que a histeria, que no tempo dele era uma coisa diferente porque se escrevia com ípsilon (como é que duas palavras diferentes podem exprimir exactamente a mesma coisa, pergunto) nas mulheres dava para o berreiro, mas que nos homens acabava, que lindo, em silêncio e poesia. A verdade é que raramente me calo e nunca consegui escrever um poema, portanto arrisco dizer que o Cesariny era gajo para ter razão quando falava do Ulisses regressado: ‘O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA’. Oremos, que a sabedoria das mulheres com piça, o que no caso quase perde o efeito metafórico, ai que malandro, a mandar uma indirecta referente à orientação sexual do poeta que, ainda por cima, jaz morto algures – onde, pergunto –, é infinita. Apercebo-me que há ensaios sobre o mundo que são substancialmente mais curtos que este texto, o que não deixa de ser um belo retrato deste tempo: as coisas que falam de coisas são pequenas, as coisas que não falam de nada são palavrosas, autênticas verborreias, que me faz pensar em diarreia do verbo. O verbo de caganeira deve ser uma imagem bonita. A cagar particípios em catadupa ou pretéritos imperfeitos em caganitas secas, como as ovelhas. O verbo é um animal que em vez de ter cu para cagar tem bocas para o dizer. Faltam as maiúsculas, mas não quero copiar o outro senhor, que, calhando, era uma senhora que em vez de ter uma cona, tinha uma piça. O Al Berto dedicou-lhe um poema. Fiquei emocionado quando soube. As comichões também são, regra geral, coisas desagradáveis. Tem de se meter pomada. Mas não era disso que estávamos a falar. Estávamos ainda, porque não gostamos de mudar de repente, no nada. Gosto da palavra nada em ‘inglês’. Ou melhor, gosto das distinções. Porque se queremos dizer que aqui não há nada, dizemos que há nothing aqui; mas se acaso nos dá para soltar um delírio sobre ‘o’ nada, então já falamos de uma espécie de vocábulo tropical: nothingness. Tem a sua graça. Tudo tem a sua graça. Até este texto terá alguma, queremos acreditar, lá no fundo. 



# Tiago Moreira Ramalho às 12:05 | | comentar | (4)

Domingo, 11.09.11

Há uma frustração profunda naqueles que procuram viver na arte, apreciando-a, conhecendo-a, explicando-a sem nunca, no entanto, serem capazes de criar. O amante de poesia que nunca se atreveu a não rasgar os versos que miseravelmente escreveu. Nunca me atrevi a deixar em letra de forma algo a que alguns chamariam poesia, mas que em mim gerava a simples repulsa do embaraço. E se volto a escrever neste blogue, não se augura muito de bom.



# Tiago Moreira Ramalho às 21:36 | | comentar

A produção artística não faz sentido se dissociada de uma qualquer motivação. Daí que faça mais sentido falar em ‘expressão artística’ do que em ‘produção artística’. ‘Expressão’ remete para uma libertação; ‘produção’ para uma troca. É por isso que os grandes artistas, os que perduram, são os que, na essência, nos dizem algo. Geralmente, mais do que sobre eles, sobre nós neles. 



# Tiago Moreira Ramalho às 21:35 | | comentar

Sexta-feira, 15.07.11

A gramática é uma das minhas amigas fiéis. Se é certo que, por vezes, em ânimos exagerados, lhe posso roubar um bocadinho de verdade, não menos certo é que, sem ela, seria perturbadoramente mais infeliz. Escreveria as cartas de aviso sem brio ou brilho. Coisas cheias de pontos finais e reticências. A gramática é o motor da vida menos infeliz.



# Tiago Moreira Ramalho às 14:16 | | comentar

Terça-feira, 12.07.11

Toda a arte se resume a uma busca por uma qualquer resposta, uma qualquer verdade. Das que sustentam a existência. Geralmente, é frustrada.



# Tiago Moreira Ramalho às 11:23 | | comentar

Sexta-feira, 08.07.11

A pena é o mais elevado dos sentimentos. Olhamo-la de soslaio, mas o facto é que os sentimentos têm como primeira missão satisfazer quem os possui. E a pena é a afirmação involuntária de uma superioridade sobre o facto ou sujeito lamentado. Se tenho pena de ti é porque tu não mereces respeito, consideração, compaixão nem qualquer outro dos sentimentos nobres. Mereces a pena, o sentimento que me lembra, que nos lembra quão melhores somos. O irmão maroto da pena é o nojo, mas isso fica para outro dia.



# Tiago Moreira Ramalho às 21:42 | | comentar

Há dois anos que vivo quase diariamente um pouco numa estação de metro que se chama Jardim Zoológico. O outro Jardim Zoológico, o que tem os animais – na sua variante menos selvagem – fica a meia dúzia de passos, daí o nome. Passei pela vida nesse sítio, em minutos geralmente ansiosos pela chegada o comboio subterrâneo, sem pensar que um dia, por força das circunstâncias, me sentiria parte de um jardim, de animais ou não, em que seria assunto de conversa fiada, com dedo apontado, curiosidade, interesse alcoviteiro. Componho uma montra de artigo único com o que de mais ridículo a humanidade contém.



# Tiago Moreira Ramalho às 20:35 | | comentar

Já gastei oitenta euros na farmácia esta semana. A doença é só uma, mas ramifica-se além do compreensível pela mente humana. Avança, sem recuos, e espalha-se e domina tudo o que encontra até chegar ao exterior que acaba a destruir ou negligenciar sem qualquer pudor. Uma ida ao cinema, umas revistas estrangeiras, seis livros e dois filmes compõem o plano de recuperação definido. Por quem, não sei, nem me interessa. Viver mata. Fugir da vida faz-nos esquecer o elementar facto.



# Tiago Moreira Ramalho às 20:26 | | comentar

Sexta-feira, 24.06.11

Responder a uma coisa destas é como andar nu na rua, mas como pediste, toma lá.

 

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

The City and The Pillar, do Gore Vidal. A história é banal, a escrita simples, a arte é omnipresente. Enfim, um livro como eles devem ser.

 

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Uma coisa do António Lobo Antunes, o Arquipélago da Insónia. Prometi-me não repetir.

 

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Ainda não li nenhum que se adequasse à maldição.

 

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
A lista envergonha-me.

 

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Há algumas. A alma que vem a Blimunda, porque lhe pertence nunca me deixou a memória. Do lado alegre, a cena final d' A Troca do Lodge fez-me rir imenso.

 

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Pouquíssimo. A leitura foi uma descoberta tardia. Lia uma colecção de pequenos livros de História, com os quais contava aumentar muito a minha cultura e assim (História Horrível, da Europa-América), lia uma Bíblia infantil (ilustrada) e uns conjuntos de contos, com letras garrafais, que a madrinha, num gesto de bondade, ofereceu um dia. Nunca gostei do Harry Potter.

 

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Houve alguns. Há uns tempos sentia-me mal em largá-los, sentia que os traía (afinal, respeito-os). De há uns tempos para cá, estou-me a cagar.

 

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

O já referido The City and The Pillar, o Memorial do Convento, o Ensaio Sobre a Cegueira, O Primo Basílio, A Relíquia, o Murphy, o Watt, a Metamorfose, a Carta ao Pai, o Convite para uma Decapitação, o Lolita, a Pena Capital, o Manual de Prestidigitação. É, revisito demasiado os autores. Peregrinatio ad Loca Infecta, Silogismos da Amargura, Aulas de Literatura do Nabokov, The War Against Cliché. Enfim, falta-me ler imenso. 

 

9. Que livro estás a ler neste momento?
L'Étranger, do Albert Camus. A minha primeira experiência em francês.Tomem: «Mais il m'a coupé et m'a exhorté une dernière fois, dressé de toute sa hauteur, en me demandant si je croyais en Dieu. J'ai répondu que non. Il s'est assis avec indignation. Il m'a dit que c'était impossible, que tous les hommes croyaient en Dieu, même ceux qui détournaient de son visage. C'était là sa conviction et, s'il devait jamais en douter, sa vie n'aurait plus de sens. 'Voulez-vous, s'est-il exclamé, que ma vie n'ait pas de sens?' À mon avis, cela ne me regardait pas et je lui ai dit».

 

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Deixem estar. As pessoas a quem perguntaria já responderam.



# Tiago Moreira Ramalho às 15:01 | | comentar | (2)

Sábado, 11.06.11

Não somos capazes de suportar a ideia de que aqueles de quem mais gostamos são completos idiotas. É para nós inconcebível que quem recebe as nossas mais elevadas considerações possa ser uma besta. E por isso, deparados com as excessividades comportamentais próprias da bestialidade comum, adoptamos a postura parental ou fraternal de nos sentarmos à mesa e discutirmos muito freudianamente as raízes de tais acções. Formalizamos teses, atiramo-nos ao debate interior, tudo para justificar, ou pelo menos para encontrar uma motivação lógica e ‘humana’ para tamanhas alarvidades. A lição, no entanto, é muito simples: gostando ou não, é bem provável que os nossos mais-que-tudos sejam assholes irremediáveis. E dada a volatilidade destas mais-que-tudices, mais vale cortar os males pelas raízes.



# Tiago Moreira Ramalho às 10:37 | | comentar | (1)

Terça-feira, 31.05.11

«A grande diferença entre mim e ti é que eu consigo separar bem o que é relevante e o que realmente vale a pena daquilo que não é.»



# Tiago Moreira Ramalho às 10:27 | | comentar | (2)

Segunda-feira, 30.05.11

Temos por natureza uma certa afecção pelo estado ilusório. Gostamos de comer o bife, sentir-lhe o sabor, mesmo que, no fim, não haja bife nenhum. É por isso que acusamos os outros se nos ‘desiludem’, quando na verdade deveríamos agradecer-lhes. Afinal, desiludirmo-nos é o primeiro passo para percebermos o que está subjacente à imagem. Se isso é bom ou não acaba por ser irrelevante.



# Tiago Moreira Ramalho às 11:47 | | comentar

Domingo, 29.05.11

Hoje percorri uma calçada em completo silêncio. Via-me e parecia-me um personagem de fraca qualidade de um filme de pior qualidade ainda. Nenhum argumentista se lembraria de me meter, caso fosse um dos seus personagens, a percorrer aquela calçada e a percorrer aquele silêncio. Um argumentista habitual, daqueles que produzem a sua obra atendendo ao ‘racional’, ao que faz sentido, teria pegado em mim e ter-me-ia feito pegar nas coisas e ir para outra calçada qualquer. Os meus dias, na verdade, compõem uma obra de arte rara, uma obra exclusiva que me ofereço. Uma obra de que facilmente abdicaria.



# Tiago Moreira Ramalho às 14:38 | | comentar

Domingo, 22.05.11

Acho que é o Gore Vidal que nunca fala de amor com ninguém, por não saber o que a outra pessoa associa ao termo. Ele é que tem razão. De amor não se fala, não se escreve, não se grita. De amor chora-se, ri-se e morre-se. E é só isso.



# Tiago Moreira Ramalho às 21:15 | | comentar | (1)

«Who do you think you are

Running around leaving scars

Collecting your jar of hearts[?]»

 

Christina Perri



# Tiago Moreira Ramalho às 16:12 | | comentar

Sempre achei a misoginia, a xenofobia e a homofobia formas superiores de irracionalidade. A única postura verdadeiramente séria é a misantropia. Nenhum humano, seja de que tipo for, é merecedor de qualquer tipo de simpatia. Morrerei rodeado de animais. Ou sozinho, na mais provável das hipóteses.



# Tiago Moreira Ramalho às 05:31 | | comentar

Sábado, 21.05.11

Ainda estou a ouvir (devia ter começado esta frase a meio, que estou farto de frases inteiras, completas e com significado) o mascar da pastilha da senhora que me cortou gentilmente o difícil cabelo. O som perturbador e quase hipnotizante de uns dentes de meia-idade a desgraçar um pedaço de borracha com sabor. Provavelmente maltratava a pastilha para não me maltratar a mim ou a outro qualquer. Talvez alguém que lhe andasse a perturbar a meia-idade. Talvez o próprio Deus, que lhe roubou a formosura que em tempos achou ter. E o cheiro. Tenho o cheiro entranhado na roupa. Uma mistura estranha de menta e tabaco que me invadiu o sentido, só um, durante aquela meia hora. Tomei banho e não saiu. Tomei outro, irritado, desesperado e ainda não me livrei. Ficará comigo para sempre. Emanará do túmulo. E nada era pior que o vislumbre da bocarra pintada de batom irregular, apressado, gasto pela pastilha que saltava e que se arredondava em balões regulares. Em movimentos lentos, a boca abria-se, a pastilha movia-se, a boca fechava-se. Sempre assim, sempre igual, sem nunca acabar. Quando abria a boca, via-se a língua escura, experiente e viam-se os dentes, amarelecidos, uma cárie, uma falha.

Saí apressado, depois de pagar. Vinha nervoso, a tremer. Parecia que sentia a pastilha a saltitar na minha boca. Parecia que lhe sentia o sabor e o cheiro, apesar da distância. Esbarrei com um velho, que me amaldiçoou a mãe, coitada, coitado. Comecei a correr para o carro. Estava escuro. Voltei para casa.



# Tiago Moreira Ramalho às 20:19 | | comentar

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Tiago Moreira Ramalho

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