Domingo, 31 de Janeiro de 2010

 

«– Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas – disse, apontando para os botins mal engraxados – tenho muita honra nelas, são de quem trabalha…

Porque publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza, que intimamente não cessava de o humilhar.»
 
Neste pedacinho de um dos grandes livros de Eça de Queirós – O Primo Basílio –, está Portugal. Julião, que se orgulha publicamente das suas botas gastas e da sua pobreza «de quem trabalha», poderia ter qualquer outro nome menos literário, convenhamos, como «Zé Povinho». É o português típico que, publicamente, ataca quem enriqueceu – independentemente da forma, seja honesta ou desonesta – sendo que, no íntimo, inveja tal sorte. A ideia muito portuguesa de que ser pobre é um valor em si, de que qualquer empresário, empreendedor ou qualquer pessoa realizada não é merecedor de consideração, atirando-se, muitas vezes, com a célebre frase de que «a trabalhar ninguém enriquece» – assumindo-se que para que alguém possa enriquecer tem de recorrer à malandrice, é, provavelmente, um dos principais causadores do nosso atraso. Um país, para ter sucesso, tem de olhar para quem tem sucesso. No nosso país, quem enriquece é alvo dos ódios que destruíram boa parte do mundo no século passado. Claro que muita da responsabilidade deste ódio advém de um certo espírito aristocrático que cem anos de república não conseguiram destruir e do pretensioso novo-riquismo de muitos dos que subiram na escala social – talvez o próprio Primo Basílio seja um exemplo disto. Será assunto para um outro post.


# Tiago Moreira Ramalho às 11:48 | | comentar

autoria
Tiago Moreira Ramalho

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