Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

 

Algumas páginas antes desta passagem, acontece precisamente o inverso do retratado – temos a outra face da moeda: o endinheirado que apouca o pobretanas. Quando Luísa, aquela tonta, apresenta Julião ao Primo Basílio, este último não cessa de diminuir o primeiro, gozando cada detalhe. É o retrato da outra parte da barricada na chamada luta de classes. Quem enriquece, principalmente em Portugal, aproveita-se disso para diminuir quem está mais abaixo na escala social. Enriquecer em Portugal não é um projecto pessoal, mas sim uma necessidade social. Isto faz com que, geralmente, os «novos-ricos» sejam ainda mais agressivos nesta postura – o seu enriquecimento constitui uma espécie de «desforra» pelo que «sofreram» quando passeavam alguns degraus mais abaixo na escala social. É um comportamento paradoxal. Em vez de combaterem aquilo que os atormentou no passado, juntam-se à festa e tratam, eles próprios, de «atormentar» de algum modo. Encontramos processos semelhantes nos fenómenos de bullying nas escolas, por exemplo. Em Portugal todos odeiam os ricos até ao dia em que ganham o estatuto, do mesmo modo que todos os totós odeiam os mauzões até ao dia em que se lhes abre a possibilidade de ingressarem no grupo.

Isto, claro, torna a «luta de classes» uma realidade em Portugal quase trezentos anos depois da Revolução Industrial e mais de duzentos anos depois da declaração de independência dos EUA – um dos primeiros sinais da decadência dos regimes aristocráticos. A «luta de classes» portuguesa, tão portuguesa, é um produto cultural que dificilmente deixará de existir. Não é por acaso que não há liberais em Portugal, mas apenas esquerda e direita.


# Tiago Moreira Ramalho às 09:25 | | comentar

autoria
Tiago Moreira Ramalho

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