Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

No seu espaço na última página do Público, Vasco Pulido Valente dá-me uma sova. Não directamente, que não nos conhecemos. Indirectamente. Como dá a todos aqueles que a propósito do caso Mário Crespo se indignaram. Claro que esta «sova» não é no sentido de «abada», mas sim no outro, o mais corriqueiro.

Defende VPV que nos aproximamos de um regime sem liberdades básicas (até aqui ainda estamos amigos) e que o caso Crespo veio, «voluntária ou involuntariamente apressar as coisas». Porque «de repente a coscuvilhice se tornou numa fonte fidedigna e usável». O professor VPV está, coitado, a ver mal as coisas.
Em primeiro lugar, o professor deveria aprender que nem todos somos iguais. Não somos. Se eu vou para um café e grito em cima da mesa que o Crespo é um problema, no máximo recebo uma ovação sentida e ninguém mais se lembra do caso. O motivo? Francamente, professor, que pergunta!.. O motivo prende-se com o facto de eu não ser propriamente um titular de um órgão de soberania. Por outras palavras, prende-se com o facto de os meus incómodos, no máximo, levarem à perda de um individuozinho nas audiências. Por outro lado, se um Primeiro-Ministro vai a um café e diz que Mário Crespo é «um problema» e que, além disso, tem de «ser resolvido», perdão ó professor, mas aqui a porca, essa estouvada, torce o rabo. Porque este senhor, o Primeiro-Ministro, já pode, de alguma maneira, acabar com programas – ó professor, não s’alembra? Aconteceu consigo há poucochinho tempo – e com carreiras.
Sim, sim, temos a questão «da conversa privada». É certo que a conversa de Sócrates com a sua troupe era privada. A questão essencial aqui é se o respeito pela privacidade enquanto valor supera o da denúncia de um possível crime de atentado à liberdade de expressão e de imprensa. É o mesmo que eu ouvir, num café, dois marmanjos a planear um assalto a um banco e não denunciar o caso às autoridades porque não quero ser «coscuvilheiro» e porque não quero atentar contra a privacidade dos larápios. Aqui não se denunciou uma quadrilhice de jogador de futebol, uma namorada ou coisa que o valha. Denunciou-se um adivinhável crime.
Exagero, dizem os cépticos. Nada disso. Começam a ser demasiados os casos e não me admira que um programa como o Plano Inclinado, que tem a maravilhosa qualidade de não ter gente comprometida e que não pode ser persuadida por outras vias, acabe a bem da normalidade. Do mesmo modo que acabaram telejornais e colunas de jornal, do mesmo modo que foram saneadas editoras de rádio, do mesmo modo que foram processados mais de uma dezena de jornalistas. O que choca verdadeiramente, professor, é o facto de um país inteiro olhar para isto com a serena passividade dos preguiçosos que, além de não estarem habituados à liberdade, como o professor numa das frases que estão bem escritas no seu texto diz, não querem sequer experimentar-lhe o gosto.


# Tiago Moreira Ramalho às 11:13 | | comentar

autoria
Tiago Moreira Ramalho

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