Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

Ler esta crónica de Pedro Marques Lopes deu-me, essencialmente, pena. Pena que o Pedro Marques Lopes, antes de julgar o movimento, grupo, o que lhe quiserem chamar, não tivesse tentado percebê-lo - ainda por cima quando conhecia boa parte dos membros. Para o Pedro Marques Lopes as «dezenas de cidadãos», nas quais me incluo, que estiveram quinta-feira à tarde à porta da AR não passam de uns histéricos sem grande coisa com que ocupar o tempo.
Não há problemas na liberdade de expressão e na liberdade de imprensa, diz-nos Pedro Marques Lopes. Bom, o Pedro Marques Lopes, neste ponto, deveria mesmo ter falado com os organizadores da manifestação de quinta-feira passada. É que eles rapidamente lhe diriam que muitas pessoas não assinaram a petição ou não estiveram na manifestação pelo simples facto de dependerem do Estado e não convir levantar muitas ondas. Se o Pedro Marques Lopes acha que a liberdade de expressão está de boa saúde e se recomenda, tudo bem. O Pedro Marques Lopes deveria também ler, caso já tenha lido, com mais atenção os pormenores do esquema: ter, através de meios do Estado, a Cofina, a Ongoing, a Media Capital, a Impresa e a Controlinveste nas mãos de pessoas ligadas a Sócrates e ao Partido Socialista não é algo banal: tratar-se-ia de ter toda a imprensa relevante em Portugal nas mãos de um grupo de pessoas muito, muito reduzido. Todos os Jornais relevantes à excepção do Público estariam nas mãos destes senhores, todas as news magazines à excepção da quase irrelevante Focus estariam nas mãos destes senhores, todos os telejornais televisivos estariam nas mãos destes senhores. E pode o Pedro dizer-nos que as redacções são independentes dos grupos. O tanas. Basta ler o que o «amigo Joaquim» diz, precisamente, ao director do seu jornal e ao director do Jornal de Notícias quando começam a sair notícias "fora do comum": coisas como "disse-lhe [a João Marcelino] para ter cuidado com essa brincadeira" ou "tenham [no Jornal de Notícias] cuidado com as perguntas que andam a fazer".
Não, Pedro, não temos uma repartiçãozinha onde senhores de bigode e óculo de massa riscam, com lápis azul, os textos dos jornalistas e comentadores. Mas isso não significa que tenhamos a liberdade que nos é devida. Isso não significa que não haja outros métodos. Felizmente, espero eu, as suas crónicas ainda não são revistas, do mesmo modo que nós, o tal grupo de algumas dezenas de pessoas, ainda podemos fazer o que fizemos. Provavelmente com este esquema, continuaríamos a poder fazer tudo isto, mas nas redacções de jornais como o seu e outros passaria a haver "cuidado" com "brincadeiras". Agora digo-lhe eu, Pedro, cuidado com as brincadeiras. Podemos todos ter reservas (acho que não há ninguém que não tenha) quanto à forma como isto explodiu, mas, depois da explosão, dizer que está tudo bem só porque não houve mortos é uma "brincadeira" com muito pouca graça.



# Tiago Moreira Ramalho às 12:48 | | comentar

autoria
Tiago Moreira Ramalho

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