Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

Vivo dias estranhos. São quase melancólicos, roçando mesmo o infeliz. Leio Beckett e aquele humor que nos dá um sorriso mau, não sei explicar. Não é o sorriso bom da felicidade, é um sorriso perverso. Seguramente fruto do arranjo estético, mas mais fruto do que lhe subjaz. Não se explica, lê-se. E depois oiço Piazzolla e acabou de passar por mim um senhor fardado que, no destino a que se propôs, estacou e vislumbrou o que o rodeava. Estava tudo bem, se calhar. Ou se calhar não e saiu só para ir buscar reforços. E depois sinto-me um miserável. Hoje dei por mim a pensar que nunca li os óbvios, quanto mais os menos óbvios. Nunca li Kundera, nem Tolstói, nem Dostoievsky, nem Flaubert, nem o Eliot, nem a Eliot, nem o Dickens, nem o Twain, nem o Cervantes, nem o Hardy, nem o Miller, nem a Woolf, nem as Brönte. E não tenho tempo, palermas que dizem que tenho tempo. O tempo não se tem, não se pode possui-lo, o tempo existe e nós ou o usamos ou nos desgraçamos. Não há apelo. Não tenho tempo, não peço tempo, não dou tempo. Só uso o que existe, bem comum, se calhar, como o ar, quem sabe. Não tenho tempo. E os patinhos da Gulbenkian continuam os mais bonitos, os esquilos de Lisboa, estou aqui ao pé deles a trocar mimos felizes, bicadas gostosas, talvez fosse melhor não, não sabemos onde andaram, mas que se dane. Os que ainda são bebés parecem peludos. Aves com pêlo, gargalhemos. Se calhar agora nascem com pulmões. E os jardins da Gulbenkian continuam a ser de todos os mais bonitos. Estou no meio de um caos urbano sem sentir qualquer caos urbano. Refugiei-me numa espécie de meio isolado, primeiro com o livro, depois com o computador, a seguir não sei, talvez sem nada, só a dormir acordado à espera que o tempo que não é meu passe por mim sem que nunca se me entregue. O tempo só se dá a quem o merece. E só esses sentem que o tempo mereceu a pena. Todos os outros acabam condenados ao absurdo. Era como se o ar só se desse a respirar a alguns privilegiados. O mundo não é justo, aprendamos.



# Tiago Moreira Ramalho às 12:03 | | comentar

autoria
Tiago Moreira Ramalho

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