Penso que nunca terei, em nada do que escreva, um personagem verdadeiramente feliz. Por muito engenho e arte que possa vir a ter, o facto é que ninguém tem uma imaginação assim tão grande.
Vale muito pouco querer alguma coisa. As coisas que nos fazem verdadeiramente felizes dependem de nós numa proporção absurdamente reduzida. Esperemos pelo acaso e pode ser que tenhamos sorte.
Let me start by saying that the only one I’m allowed to love is I. And that’s final.
A conversa costumeira da fidelidade que devemos à nossa essência não ultrapassa isso mesmo: simples conversa. A fidelidade à nossa essência só nos traz algo de bom numa percentagem reduzidíssima das situações. Na realidade, meu caro leitor, se quer ser alguém, aprenda a ser outro. O conceito de perfeição, ou pelo menos a sua aproximação, não se compagina com grandes «excentricidades», como o Bentham lhes chamava.
As febres auto-destrutivas são simplesmente inevitáveis até ao momento em que encontramos uma forma simples de ser felizes. A forma simples pode não ser especialmente heróica. Pode ser essencialmente a mais fácil.
Temos uma tendência perturbadora para nos agarrarmos à ideia de alguém, mesmo quando o tempo nos mostra o erro da ideia e o quão diferente esse alguém na realidade é. Correm, à nossa frente, numa carpete vermelha, do sangue que o coração bombeia, os defeitos, as misérias, as farpas, as pequenas podridões e nós, agarrados à ideia, fingimos que não as vemos chapinhar enquanto andam na carpete. Até que mais cedo ou mais tarde, nada nos resta além de apontar para baixo e largar a idiotice.
Há alturas em que era capaz de dar tudo para poder escrever um poema. Um simples poema. Nem todos nascemos para o mesmo, pelo que me resta guardar o teu olhar para mim, só para mim.
E depois lembramo-nos, simplesmente, de abrir o estore, correr o cortinado e ver a luz do dia. E sorrimos, felizes.