A Fernanda Câncio, que, meus caros, existe, dado já ter jantado com uma série de pessoas, supõe-se, é do caraças. Mas é mesmo. Dona daquele jeito, como dizer, característico, não deixa ninguém sem opinião (o que, dizem, é uma virtude). Ora, eu tenho cá as minhas opiniões sobre a Fernanda Câncio (a propósito, está boa Fernanda Câncio? Não sei se sabe, mas o meu Word não aceita o seu nome, numa clara demonstração de atavismo e assim – só um reaccionário é que pode não aceitar que o nome Câncio existe, não é verdade?). Tenho as minhas opiniões, sim, mas não as divulgo, porque, minhas senhoras, sou um gentleman e assim.
Independentemente das minhas opiniões sobre a Fernanda Câncio (nunca mais a vi na televisão, o que mostra o quão aborrecida anda a pátria, sem fracturas «cancionáveis», pelo menos dado os presentes actores, digamos assim), dedico-lhe posts sem fim porque, enfim, o espécimen é raro e digno de análise aprofundada e um tanto ou quanto jocosa – o quanto baste, para não aborrecer.
Diz a Fernanda Câncio, na sua versão in, isto é, na sua versão f., que é interessante cotejar, palavra, que, confesso, desconhecia por completo e, meus amigos, continuo a desconhecer,
este meu texto quando o mesmo autor, eu, que sou autor de textos e quase-textos, também escrevi
este. Agora é que a Fernanda Câncio me apanhou a desonestidade intelectual, que andava tão bem escondida do mundo. Fiquei extremamente envergonhado, porque, verdade se diga, se fosse um tipo qualquer a dar-me o raspanete, eu movia on e nem ligava, mas a verdade é que se trata de Fernanda Câncio e, preclaríssimos leitores que eventualmente persistam no crime de não a conhecer, a Fernanda Câncio é um exemplo para qualquer alma do que é ser, em primeiramente, coerente e, em segundamente, intelectualmente honesto. Claro que também é um exemplo noutras áreas, muitas, nomeadamente na área da escrita exclusivamente com minúsculas (a propósito, estamos bem, não estamos, Fernanda Câncio? É que não me habituo às minúsculas. Coisa de gentinha desonesta, quem sabe) e também aquela que diz respeito ao trato, digamos, educado. Passemos tudo isto, que o espécimen (ó Fernanda Câncio, não me leve a mal chamar-lhe espécimen – não é ofensivo, apenas descritivo) ainda há-de ser alvo de tese minha (a ciência ainda tenho de a escolher, pois todas as perspectivas são válidas), mas agora tenho de lhe explicar coisas, vamos ao assunto.
O meu texto do Corta-fitas, Fernanda Câncio, dizia, e bem, que eu concordo muito comigo mesmo, que a posição que a Fernanda Câncio apresentava no seu texto era, e cito-me, impressionante. Impressionante porque a Fernanda Câncio dizia «daquela gente», nos seus termos, que eram todos iguais na nojeira. Ora, no meu segundo texto, muito bonito, cheio de imagens e até com uma referência bíblica, que eu sou um tipo que se interessa por matérias dessas e assim, eu não digo que são todos iguais. Digo, até e inclusivamente, que há bons argumentos contra o casamento homossexual e que, calma que agora temos de estar atentos ó Fernanda, «Mas a verdade é (…) que a manifestação não era só contra o casamento homossexual. Em grande medida, os que ali estavam manifestavam-se contra uma «perversão» a que a «liberdade», a deles, não dá direito.» Eu sei que agora a coisa se torna difícil, principalmente porque o João Galamba (
obrigado, João) não citou a primeira frase. No entanto, vou tentar explicar-lhe, ó Fernanda Câncio, o que está escrito no meu texto. Ora vamos lá: eu digo que a manifestação não era só contra o casamento homossexual, porquê?, porque em grande medida, repitamos em coro Fernanda Câncio, em grande medida, os que ali estavam queriam era malhar nos senhores e nas senhoras que, enfim, tiveram a sorte ou o azar de ser diferentes. A expressão «em grande medida», em termos de quantificação, situa-se algures, Fernanda Câncio, entre o «alguns» e a «totalidade». Gosta de passear-se ali no meio por, precisamente, não significar nem uma coisa nem outra. Ambos os dois (sim, ambos os dois, que eu leio livros e anúncios de jornais) sabemos perfeitamente que nem todos os que ali estavam eram homofóbicos – há pessoas que, não sendo homofóbicas, apresentam interessantes argumentos contra o casamento civil para pessoas do mesmo sexo. No entanto, não sendo nós parvos (ó Fernanda Câncio, acredite-me, nós os dois não somos parvos nenhuns), chegamos facilmente à conclusão que uma boa parte dos que ali estavam, cheios de cartazes horripilantes e assim, o que queriam era uma solução final para aquilo que, nas suas interessantes mentes, é a «paneleiragem» do nosso bem-amado Portugal, que Deus abençoe.
Mantenho o que escrevi no meu primeiro texto, do Corta-fitas? Mantenho sim senhora, porque só sou gajo para voltar atrás quando a estrada está fechada. Eu não sou beato nem misógino (esta aprendi consigo, ó Fernanda Câncio – mais uma para contar aos netos) e sou contra a legalização do aborto. Porque tenho, eu sei que isto é difícil de acreditar, argumentos e uma base filosófica para manter tal posição. Do mesmo modo que, nesta altura, tenho argumentos e uma base filosófica para defender o casamento para pessoas do mesmo sexo. Eu sei que este parágrafo foi difícil de digerir, ó Fernanda Câncio, que qualquer pessoa que já tenha jantado com outra pessoa tem sérias dúvidas em acreditar que eu tenho bases filosóficas para o que quer que seja, por isso, vou deixá-la reflectir sobre o assunto.
Já que já reflectiu, que um parágrafo dá mais que tempo, aproveito para a deixar com as ideias (seguramente acertadas) a que chegou e despeço-me com um grande aceno de mão, à provinciano, que é o que sou, apesar do cosmopolitismo óbvio. Um beijinho não lhe mando, que m’avergonho e tenho medo de a espantar. Às vezes, podia acontecer.