A ideia de Paulo Rangel não é, de todo, nova. É uma ideia que é defendida há muito por forças como o PCP ou o CDS. Aliás, a soberania alimentar é como que um sonho luso, de todos aqueles que olham para agricultura e, passando o indicador pelo canto do olho, enxugando, reclamam da obrigação de comer maçãs de Espanha, de onde, lembremo-nos, nem bom vento, nem bom vento nem bom casamento.
A questão é que a ideia é tola. Completamente tola. Vem em todos os manuais de teoria do valor que é um disparate que um país insista constantemente em produzir em áreas para as quais não está especialmente capacitado (é até algo «ofensivo» que um português se meta com estas conversas quando a tese que desmonta esta argumentação foi apresentada usando, para exemplificação, Portugal). Não ponho em causa que as maçãs portuguesas são muito boas (nunca distingo, palavra), mas uma economia como a nossa não pode ser artificialmente conduzida para uma produção de baixo valor acrescentado, uma produção que está naturalmente destinada aos países mais pobres que, por força das circunstâncias, não podem produzir carros ou telemóveis.
Além disso, por muitos subsídios que sejam dados, atingir o patamar de soberania alimentar, uma expressão curiosa, é extremamente complexo, para não dizer impossível. Só haveria soberania alimentar se (i) destinássemos largas, larguíssimas fatias do Orçamento de Estado para apoios aos agricultores ou (ii) se fizéssemos deslocações não voluntárias de pessoas. Ora, parece-me que nenhuma das duas possibilidades é muito recomendável – mas, claro, podeis sempre tentar (diz que a segunda ainda resultou durante umas décadas lá para aqueles lados).
Sugeriria a quem trata da campanha de Paulo Rangel que o demovesse deste tipo de nacionalismo tardio. As «soberanias» na economia nunca são muito saudáveis. Mesmo quando dizem respeito a frutas e vegetais.