«Se Portugal não tivesse relações comerciais com outros países, em vez de aplicar uma grande parte do seu capital e trabalho na produção de vinho, com o qual compra aos outros países os tecidos e os metais de que necessita, seria obrigado a aplicar uma parte desse capital na produção desses bens, os quais seriam provavelmente de qualidade inferior e em menor quantidade do que os que obtém no estrangeiro.
A quantidade de vinho que Portugal tem de dar em troca dos tecidos ingleses não é determinada pelas respectivas quantidades de trabalho aplicadas na produção de cada um dos produtos como sucederia se ambos fossem produzidos em Inglaterra ou em Portugal.
A Inglaterra pode encontrar-se em tais circunstâncias que para produzir os tecidos necessita do trabalho de 100 homens durante um ano e se tentasse produzir o vinho poderia precisar do trabalho de 120 homens durante o mesmo período. Portanto, a Inglaterra teria interesse em importar vinho e em comprá-lo com a exportação dos tecidos.
Em Portugal a produção de vinho poderia só necessitar do trabalho de 80 homens durante um ano e a produção dos tecidos exigiria o trabalho de 90 homens durante o mesmo período. Teria portanto vantagem em exportar o vinho em troca dos tecidos. Esta troca poderia mesmo verificar-se apesar de a mercadoria importada por Portugal poder ser produzida neste país com menos trabalho do que em Inglaterra. Embora Portugal pudesse fabricar os seus tecidos só com 90 homens, importá-los-ia de um país onde são necessários 100 homens para os produzir porque teria mais cantagem em empregar o seu capital na produção de vinho, em troca do qual obteria da Inglaterra uma maior quantidade de tecidos do que a que poderia produzir desviando uma parte do seu capital utilizado na cultura da vinha para fabricação de tecidos.»
David Ricardo, Princípios de Economia Política e de Tributação, Capítulo VII: Sobre o Comércio Externo (em 1817)