O que fazia de Cavaco Silva um candidato interessante à Presidência da República não era, meus caros, o seu pensamento. O pensamento político de um Presidente da República, no actual quadro constitucional, interessa-me pouco. As guerras ideológicas, a haver, tomarão lugar no Parlamento e numa guerra puramente ideológica entre Presidente e governo, o governo sai sempre por cima. O que me interessava em Cavaco Silva, pelo menos numa fase inicial, era aquilo que eu julgava ser um profundo respeito pela instituição que ocupava e para a qual se queria recandidatar. Reserva e prudência, sem usar e abusar dos meios de comunicação para enfrentar o governo, agradava-me o facto de não utilizar o posto para se promover ou para promover outros. Isso, infelizmente, mudou a seguir ao Estatuto dos Açores. Mudou irremediavelmente. Neste momento, não temos um Presidente da República, mas sim um mero candidatozeco a um lugar que precisa de muito mais do que isso. Cavaco Silva deixou de ser o meu Presidente da República quando colocou a sua estratégia acima dos deveres do seu cargo. Deixou de ser o meu Presidente quando, a fim de obter uma reeleição, preferiu a cobardia de não demitir um governo que em qualquer sociedade que se auto-proclamasse civilizada já teria caído. Por isso, meus caros, é-me indiferente quem ocupará Belém nas próximas eleições. O que diferenciava Cavaco já não existe.